"words are poisoned darts of pleasure" FF

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mala II

Finalmente descobri d’onde vem meu pânico de malas: jamais caberia inteira dentro de uma delas. Cada lado percorrido pelo zíper corta fora uma das minhas cabeças — justamente quando não dá pra prever quais delas vou precisar usar. Mínima de 15oC em São Paulo. Luiza acha frio; Alice acha ótimo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

distraídos

No Starbucks do Shopping Leblon os elevadores panorâmicos apostam corrida e as crianças correm em círculos. Observo a movimentação e me pergunto se algum dia vou conseguir ler duas páginas em paz, sem me emocionar com a passagem do tempo. TPM mais lua cheia é hit combo de tristeza sem porquê.

***

A luz fria pisca insistentemente e a voz do palestrante vai se diluindo na vertigem que esse strobo acadêmico me causa. Pistas de dança, auditórios — everything is version of something else. Lá embriaga-se de vodka, aqui de café. Na balada, o breu. Aqui o excesso de luz cega. No banheiro da boate vomitamos bebida. No seminário regurgitamos palavras.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ânsia

Tenho vontade de
mastigar devagarzinho
(mastigar e vomitar
até o último pedacinho)
esse olhar de 'pena, coitadinha'
que me lançam sempre
que saio pra jantar sozinha

quinta-feira, 13 de maio de 2010

gripal

Gosto muito de colocar papel pra tomar chuva
da fragilidade da tinta que desmancha
da palavra que desaparece
e eu ali, sumindo junto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

de pijamas numa sexta à tarde

No fundo, todo mundo sabe

que a vida aos vinte e poucos

ou nos faz totalmente loucos

ou aponta o rumo que nos cabe.


Complicado, mesmo, é fechar os olhos e enfiar o pé na jaca.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Relógios meus

Na infância me coçavam e eram logo arrancados, abandonados num canto qualquer e decerto perdidos, para desgosto de mamãe. Um outro esqueci de propósito na banheira de um amante, desta vez para desgosto meu: o romance não durou nem um instante. Na antiga casa, nunca andou; não existiu mais do que a marca que na parede da cozinha ficou. Agora, na casa nova, jaz morto sobre a mesa o novo modelo – esqueci de pendurar.


Tic tac, mesmo, só o da morte a espreitar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Autobiografia de uma caneca

A julgar pelo estado em que chegaram à juventude minhas bonecas, já era de se esperar que, adulta, colocasse também em risco a integridade física de minhas canecas. Ainda assim, nem a mais frágil das louças imaginaria tamanha efemeridade. Foram quatro horas, um passeio pela Paulista e um fim trágico – de um banco de bar para a eternidade.