"words are poisoned darts of pleasure" FF

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ânsia

Tenho vontade de
mastigar devagarzinho
(mastigar e vomitar
até o último pedacinho)
esse olhar de 'pena, coitadinha'
que me lançam sempre
que saio pra jantar sozinha

quinta-feira, 13 de maio de 2010

gripal

Gosto muito de colocar papel pra tomar chuva
da fragilidade da tinta que desmancha
da palavra que desaparece
e eu ali, sumindo junto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

de pijamas numa sexta à tarde

No fundo, todo mundo sabe

que a vida aos vinte e poucos

ou nos faz totalmente loucos

ou aponta o rumo que nos cabe.


Complicado, mesmo, é fechar os olhos e enfiar o pé na jaca.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Relógios meus

Na infância me coçavam e eram logo arrancados, abandonados num canto qualquer e decerto perdidos, para desgosto de mamãe. Um outro esqueci de propósito na banheira de um amante, desta vez para desgosto meu: o romance não durou nem um instante. Na antiga casa, nunca andou; não existiu mais do que a marca que na parede da cozinha ficou. Agora, na casa nova, jaz morto sobre a mesa o novo modelo – esqueci de pendurar.


Tic tac, mesmo, só o da morte a espreitar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Autobiografia de uma caneca

A julgar pelo estado em que chegaram à juventude minhas bonecas, já era de se esperar que, adulta, colocasse também em risco a integridade física de minhas canecas. Ainda assim, nem a mais frágil das louças imaginaria tamanha efemeridade. Foram quatro horas, um passeio pela Paulista e um fim trágico – de um banco de bar para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Aspira(dor)

O Tamanduá-bandeira tem apetite para formigas e nasceu com um aspirador; uma dessas maravilhas da natureza, milagre da especialização. Gosta de formigas, caça formigas, aspira formigas – está satisfeito. Sem essa baboseira de ter apetite pra tudo, de querer sugar para si todos os sonhos do mundo. Somos anatomicamente incompatíveis com esse desejo. Quisera eu, uma pelagem cinza com imponente listra preta, um formato assustador e vontade de formigas apenas; formigas e só. Eu aspiro, aspiro, aspiro e só expiro pó.

*pra continuar no mundo animal, mais um exercício para a oficina. Tínhamos que versar sobre um objeto, uma fruta ou um animal - metaforizando ou não.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Amor Animal

No último natal Alice decidiu que não queria um presente convencional. Gato, cachorro e passarinho ela não queria mais. “Nada de bicho normal”, disse ao namorado, que pôs-se a procurar tal animal. “Furões se afogam na privada”, avisou um amigo do trabalho, “e tartaruga só fica presa no aquário”, emendou uma prima da namorada. Restando ao prestativo João dar uma cobra píton de presente à amada.

Dizem que o namoro desandou por culpa do bebê píton, batizado por Alice de Edgar. Parece que João não gostou de ver uma cobra em seu lugar. No início tudo bem, Edgar era pequenino. “Só um metrinho”. Mas um ano e três metros depois o quarto e sala ficou pequeno demais para os dois. Alice nem ligou, Edgar era melhor companhia, comia os ratos que lhe eram dados e não reclamava que a comida estava fria.

Mas como em todo relacionamento, a crise não tardou a chegar. “Alôu, é do veterinário?”. “Sim, senhora, pode falar”. “Minha cobra está deprimida, acho que quer se matar”. “Olha, moça, a senhora vai ter que elaborar”. Alice explicou que não sabia o que tinha o pobre Edgar. Estava prostrado, não sabia o que havia de errado. Não comia e acordava todo dia ao seu lado, com o olhar desolado.

“Dona Alice, presta atenção”, disse o veterinário, soando preocupado, “Edgar precisa ser sacrificado”. “Nem morta”, respondeu Alice, pondo-se a chorar. “No meu Edgar é que o senhor não vai encostar”. Meio sem jeito, o veterinário tomou fôlego e bradou, sem hesitar:

“Dona Alice, essa píton quer te jantar”.