memórias inventadas

"words are poisoned darts of pleasure" FF

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Turn.it.off

There was a green heart dancing in front of the wall Alice was staring at. No drugs involved. Not this time. Everyone knows red and green are complementary colours. The wall wasn’t really red, though, which probably means that the green heart wasn’t exactly green, but those are details. Wait, lets not skip this particular detail. The wall was magenta. No, cherry. The wall was a mixture of magenta, cherry and red, which the seller brilliantly named “beating heart”. I never understood the whole naming colours business, but that would be great job naming colours all day. Alice also loved navy blue, perhaps because it matched the beating heart colour so well, and both looked very nice against her paper white skin.

But her skin was now white with fear, white with pain. As for the red dripping on the floor, it had no shades of cherry or magenta. It was blood blood red. And yet the pain coming from her little toe, which she had hit pretty hard on the dresser’s corner, was nothing compared to the pain it had finally unleashed. A few years of bottled up secretes, lies and fear started to drip together with that vivid red blood. It poured like tropical rain for a couple of minutes. Then it stopped.

Like most breakdowns, Alice’s had a trigger, but no crystal clear reason. So she stared at the beating heart wall for a few minutes, sobbing, drying out her tears, wiping her nose on the night gown she found laying around her bed. On the poster, Philip Petit was walking on a wire stretched between the towers of the World Trade Center, 1350 feet up. Her favorite scene of the film is when Petit answers with a grim to police officers and reporters who are eagerly asking him ‘why did you do it?’ that he doesn’t have any whys; that he is actually outraged to be asked why after doing such a beautiful thing. Alice believed that beauty had no purpose other than moving people. But she was failing to live life based on beauty and love, like she had once planned.

Problem is that on TV shows and indie movies, even the geeks are either successful or loved. Sometimes both. Being stuck in the real world in the 21 century is a whole lot of pressure. If you haven’t got fame, then you’ve got nothing. You’re stuck with a normal life, the most dreaded illness among young people nowadays. Alice thought she was one against the statistics, but, truth is, no one is out. And that includes even the shy little nerd who never says a word and barely looks at people. He has probably recorded his rendition of a Hamlet soliloquy and posted it on youtube.

Alice had a hard time remembering what had been the last thing she had done because it was simply beautiful; or because it would simply make her happy. She closed her eyes to search for it, for she knew she had it in there. Then it happened, the green heart. Because green is the complementary color of red; and maybe “sheer hope” is complementary to “beating heart”. It travelled the wall as her mind traveled elsewhere, pursuing those things we inevitably allow to drift away sometimes.

Turns out they were not that distant after all.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um almoço para Tia Rô


A soma de almoço na serra com lei seca só podia acabar em besteira. Só sei que por sinal de deus ou do apocalipse ― talvez dos dois ― acabamos todos entalados e enfumaçados (no caso de alguns também ressacados) em meio a uma linha vermelha cheia de carros descontrolados. Paciência, liga pra van. Com um pouco de insistência e alguma resistência ao cheiro de merda do fundão, tudo se ajeita; e logo chegamos à Casa do Alemão. Lá, entre um croquete e outro, éramos seis e viramos oito. Atrasados, pois, e devo dizer que também esfomeados, subimos. Eu nada vi. Culpo tudo na vodka que sexta bebi. Já em companhia do queijo (abençoadas sejam as cabras) ― e dos amigos menos azarados ― tudo correu bem. Perdi a conta das garrafas de vinho e desconfio que as garfadas tenham sido mais de cem.

Quem podia, por lá ficou. Quem tinha compromisso no outro dia dançou ― e desceu.

*pronto, "Janani", fica aqui documentada em rimas a nossa aventura de sábado. Espero que goste.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

de pijamas numa sexta à tarde

No fundo, todo mundo sabe

que a vida aos vinte e poucos

ou nos faz totalmente loucos

ou aponta o rumo que nos cabe.


Complicado, mesmo, é fechar os olhos e enfiar o pé na jaca.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Relógios meus

Na infância me coçavam e eram logo arrancados, abandonados num canto qualquer e decerto perdidos, para desgosto de mamãe. Um outro esqueci de propósito na banheira de um amante, desta vez para desgosto meu: o romance não durou nem um instante. Na antiga casa, nunca andou; não existiu mais do que a marca que na parede da cozinha ficou. Agora, na casa nova, jaz morto sobre a mesa o novo modelo – esqueci de pendurar.


Tic tac, mesmo, só o da morte a espreitar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Autobiografia de uma caneca

A julgar pelo estado em que chegaram à juventude minhas bonecas, já era de se esperar que, adulta, colocasse também em risco a integridade física de minhas canecas. Ainda assim, nem a mais frágil das louças imaginaria tamanha efemeridade. Foram quatro horas, um passeio pela Paulista e um fim trágico – de um banco de bar para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Aspira(dor)

O Tamanduá-bandeira tem apetite para formigas e nasceu com um aspirador; uma dessas maravilhas da natureza, milagre da especialização. Gosta de formigas, caça formigas, aspira formigas – está satisfeito. Sem essa baboseira de ter apetite pra tudo, de querer sugar para si todos os sonhos do mundo. Somos anatomicamente incompatíveis com esse desejo. Quisera eu, uma pelagem cinza com imponente listra preta, um formato assustador e vontade de formigas apenas; formigas e só. Eu aspiro, aspiro, aspiro e só expiro pó.

*pra continuar no mundo animal, mais um exercício para a oficina. Tínhamos que versar sobre um objeto, uma fruta ou um animal - metaforizando ou não.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Amor Animal

No último natal Alice decidiu que não queria um presente convencional. Gato, cachorro e passarinho ela não queria mais. “Nada de bicho normal”, disse ao namorado, que pôs-se a procurar tal animal. “Furões se afogam na privada”, avisou um amigo do trabalho, “e tartaruga só fica presa no aquário”, emendou uma prima da namorada. Restando ao prestativo João dar uma cobra píton de presente à amada.

Dizem que o namoro desandou por culpa do bebê píton, batizado por Alice de Edgar. Parece que João não gostou de ver uma cobra em seu lugar. No início tudo bem, Edgar era pequenino. “Só um metrinho”. Mas um ano e três metros depois o quarto e sala ficou pequeno demais para os dois. Alice nem ligou, Edgar era melhor companhia, comia os ratos que lhe eram dados e não reclamava que a comida estava fria.

Mas como em todo relacionamento, a crise não tardou a chegar. “Alôu, é do veterinário?”. “Sim, senhora, pode falar”. “Minha cobra está deprimida, acho que quer se matar”. “Olha, moça, a senhora vai ter que elaborar”. Alice explicou que não sabia o que tinha o pobre Edgar. Estava prostrado, não sabia o que havia de errado. Não comia e acordava todo dia ao seu lado, com o olhar desolado.

“Dona Alice, presta atenção”, disse o veterinário, soando preocupado, “Edgar precisa ser sacrificado”. “Nem morta”, respondeu Alice, pondo-se a chorar. “No meu Edgar é que o senhor não vai encostar”. Meio sem jeito, o veterinário tomou fôlego e bradou, sem hesitar:

“Dona Alice, essa píton quer te jantar”.