"words are poisoned darts of pleasure" FF

sexta-feira, 19 de junho de 2009

de pijamas numa sexta à tarde

No fundo, todo mundo sabe

que a vida aos vinte e poucos

ou nos faz totalmente loucos

ou aponta o rumo que nos cabe.


Complicado, mesmo, é fechar os olhos e enfiar o pé na jaca.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Relógios meus

Na infância me coçavam e eram logo arrancados, abandonados num canto qualquer e decerto perdidos, para desgosto de mamãe. Um outro esqueci de propósito na banheira de um amante, desta vez para desgosto meu: o romance não durou nem um instante. Na antiga casa, nunca andou; não existiu mais do que a marca que na parede da cozinha ficou. Agora, na casa nova, jaz morto sobre a mesa o novo modelo – esqueci de pendurar.


Tic tac, mesmo, só o da morte a espreitar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Autobiografia de uma caneca

A julgar pelo estado em que chegaram à juventude minhas bonecas, já era de se esperar que, adulta, colocasse também em risco a integridade física de minhas canecas. Ainda assim, nem a mais frágil das louças imaginaria tamanha efemeridade. Foram quatro horas, um passeio pela Paulista e um fim trágico – de um banco de bar para a eternidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Aspira(dor)

O Tamanduá-bandeira tem apetite para formigas e nasceu com um aspirador; uma dessas maravilhas da natureza, milagre da especialização. Gosta de formigas, caça formigas, aspira formigas – está satisfeito. Sem essa baboseira de ter apetite pra tudo, de querer sugar para si todos os sonhos do mundo. Somos anatomicamente incompatíveis com esse desejo. Quisera eu, uma pelagem cinza com imponente listra preta, um formato assustador e vontade de formigas apenas; formigas e só. Eu aspiro, aspiro, aspiro e só expiro pó.

*pra continuar no mundo animal, mais um exercício para a oficina. Tínhamos que versar sobre um objeto, uma fruta ou um animal - metaforizando ou não.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Amor Animal

No último natal Alice decidiu que não queria um presente convencional. Gato, cachorro e passarinho ela não queria mais. “Nada de bicho normal”, disse ao namorado, que pôs-se a procurar tal animal. “Furões se afogam na privada”, avisou um amigo do trabalho, “e tartaruga só fica presa no aquário”, emendou uma prima da namorada. Restando ao prestativo João dar uma cobra píton de presente à amada.

Dizem que o namoro desandou por culpa do bebê píton, batizado por Alice de Edgar. Parece que João não gostou de ver uma cobra em seu lugar. No início tudo bem, Edgar era pequenino. “Só um metrinho”. Mas um ano e três metros depois o quarto e sala ficou pequeno demais para os dois. Alice nem ligou, Edgar era melhor companhia, comia os ratos que lhe eram dados e não reclamava que a comida estava fria.

Mas como em todo relacionamento, a crise não tardou a chegar. “Alôu, é do veterinário?”. “Sim, senhora, pode falar”. “Minha cobra está deprimida, acho que quer se matar”. “Olha, moça, a senhora vai ter que elaborar”. Alice explicou que não sabia o que tinha o pobre Edgar. Estava prostrado, não sabia o que havia de errado. Não comia e acordava todo dia ao seu lado, com o olhar desolado.

“Dona Alice, presta atenção”, disse o veterinário, soando preocupado, “Edgar precisa ser sacrificado”. “Nem morta”, respondeu Alice, pondo-se a chorar. “No meu Edgar é que o senhor não vai encostar”. Meio sem jeito, o veterinário tomou fôlego e bradou, sem hesitar:

“Dona Alice, essa píton quer te jantar”.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Hemisférios II

Escuta, do norte pro sul só o que muda é a cor:
sai o cinza, entra o azul – mas é igual a dor.
(esquece essa baboseira de choque cultural
só porque caiu um pouco de neve no natal)

Uma hora estás aflito de saudades do calor
e na outra faz à neve mil juras de amor.
(aposto que se tivesse se mudado pro Nepal
estaria a reclamar que o calor de lá é letal)

Entende de uma vez: saudade é uma maldição.
Finge que vai minguando e que vai desaparecer
e volta com invejável facilidade de adaptação.

Conforme-se: pra esse mal ainda não há solução.
Só nos resta aceitar, recostar e assisti-la crescer.
Claro que se acabar de beber também é uma opção.

(da série: enlouquecendo com a escansão. estava devendo esse exercício pro Paulo, aí transformei esse poeminha em um soneto. doeu, mas saiu).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

I love you is really a question

Eu te amo
na verdade
é uma pergunta.

Verdade! Diga
eu te amo
e aguarde...

Tudo faz sentido
se ele responde
'Eu te amo'

(e você vê sinceridade)

Eu te amo
na verdade
é uma indagação.

(e aí reside a perversidade)

Eu te amo
na verdade
é uma intimação.

*exercício de repetição pra aula do Paulo; não ia postar porque não tinha gostado muito, mas como as pessoas gostaram...

domingo, 26 de abril de 2009

Esque(s)endo

Subindo a memória por
um roteiro alternativo
resolvo jogar fora
tudo o que diz repeito
ao meu próprio umbigo.

Esse alguma coisa,
massa cinza, insípida,
inodora e incolor
que não foi nada
não é nada
e não diz nada a ninguém.

A piscina e o jardim não estão
e nem nunca estiveram lá –
apenas o frio,
algumas pombas
e a solidão.

Nada (como alguma coisa) acontece em qualquer lugar.

Mais um exercício pra aula do Paulo Britto. Neste deveríamos fazer um diálogo com algum outro poema. Escolhi o I Remember, I Remember, do Larkin, que dá pra ler aqui

sexta-feira, 17 de abril de 2009

matinal em botafogo

Hoje de manhã
por muito pouco
uma castanha
não me causa uma
concussão.

Alívio - pior
seria se fossem
as jacas que
estivessem em
estação.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Wake up and smell the coffee

Nem pense em ignorar o despertador
e vá cambaleando até a cozinha
(escore-se na parede para não
tropeçar e acordar a vizinha).
Ferva água e escolha uma caneca:
são três medidas de pó e nada de açúcar.

Agora volte ao quarto
e deixe que o olfato
cumpra o seu papel.
Aguarde 15 minutos e
esboce o primeiro contato.

Vida – e amor por quê não? –
só depois do primeiro gole de café.

quarta-feira, 25 de março de 2009

oficina

Fiz uma tradução/adaptação de um poeminha (Lunch) que postei aqui há alguns meses para adequá-lo a um exercício que o Paulo passou na oficina de texto poético. A idéia era fazer um poema em que a imagem fosse destaque, de preferência apresentando um veículo (algo concreto) e o um teor (seu correspondente abstrato). No poema em inglês essa dupla era composta pelo potinho de isopor da sopa e o peito da pessoa. Na tradução eu transformei o pote de sopa em garrafa de café e a ansiedade da segunda estrofe em saudade, por motivos óbvios. Acho que gostei mais dessa segunda versão.

Indigestão

Alguma coisa naquele café
cheirava a tardes de outono
e folhas espalhadas pelo chão.

(ou talvez fosse a saudade
finalmente escapando de seu
tórax hermeticamente vedado)

Girou a tampa assim mesmo
e por muito pouco não
vomitou o próprio coração.

sábado, 14 de março de 2009

off with the lights, please

Like songs that get me
jumping on weekend nights
only to leave me bleeding
when the Sunday sun peaks
Him who took my heart
dancing last week
has so soon left it
sinking into the deep.

Living like there’s no
tomorrow is a bitch
when you can’t control
life’s reality switch.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A leitora

Acho uma lástima essa coisa de ser sentimental demais. Acaba o filme, mamãe vai às compras e eu fico aqui a sentir arder o estômago, a remoer histórias que não são minhas (histórias que nem são). É mentira mentira mentira (ficção). Não, não me convenço não.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

coming home again

Hemisférios

A diferença entre
o norte e o sul é uma
simples questão de cor:
sai o cinza, entra o azul
(e fica a dor)

A maldição da saudade
é essa facilidade
de adaptação.



Alergia

Pra ser feliz às vezes
é preciso que memórias
sejam feitas de giz...

um apaga(dor), alguns
espirros, talvez;
e começa-se tudo novo outra vez.